|
mEuS pOsTs...

06/09/2008 21:24
Confissões de adolescente - 1
Quem me conhece hoje dificilmente pode imaginar que eu já fui uma adolescente meio rebelde e bem encrenqueira, no auge dos meus 16 anos de idade. Nessa época a gente pensava que podia tudo...
Eu sempre fui meio certinha e politicamente correta, porém, sentia-me uma bobona entre os demais.
Na escola, se sobressaíam aqueles que eram diferentes em alguma coisa. Eram os populares e, no fundo, eu também queria ser.
Um dia, conheci a Kátia. Ela era uma garota bem inteligente, alguns anos mais velha do que eu e já estava quase terminando o segundo grau. Kátia tinha características bem peculiares: era a revolucionária da escola e, como se isso fosse pouco, fora dos portões ela era militante de um partido político de esquerda. Para mim estava perfeito: achava interessante demais o seu jeito de ser e era com ela que eu queria estabelecer uma amizade onde eu pudesse aprender coisas novas.
Nossos laços foram estreitando-se cada vez mais. Ela era muito divertida! Fizemos juntas o primeiro jornalzinho da escola. Tratando-se de uma instituição pública na qual a diretora já estava lá há anos e era conhecida como linha-dura, cascavel, arbitrária e coisas do tipo, nosso jornalzinho foi motivo de muito medo na comunidade escolar. E Kátia era muito corajosa: fazia duras críticas à direção da escola na maior cara de pau, num momento em que ninguém queria pagar para ver o final da história...
A tão temida diretora chamava-se Dona Corina. O toc toc assustador dos seus sapatos sociais nos corredores causavam pânico nos alunos e até nos professores. Ela era terrível! Quando passava, todos se calavam e desviavam os olhares. Exceto Kátia, que sempre demonstrava sua indignação quando a tal diretora descontava seu mau-humor habitual em qualquer um que estivesse na sua reta. E assim, começavam nossos problemas.
Kátia era rotulada como má companhia, e eu como a bobona que sempre estava com ela nas confusões.
Lembro-me que uma vez fui com ela numa passeata em favor de alguma causa que nem me lembro agora, na porta da Assembléia Legislativa. Cada uma de nós ganhou uma imensa bandeira vermelha da CUT, que servia para nós como um verdadeiro troféu. Guardei-a por muito tempo...Outra vez fomos a uma manifestação por melhorias salariais pelas quais lutava o Sindicato dos Radialistas. Em meio à manifestação, fui convidada para falar no carro de som em plena Praça Sete. Fui e falei bonito, baseada em tudo o que estava sendo dito e discutido ao redor. Detalhe: eu mal conhecia as condições de trabalho dos radialistas, se suas reivindicações procediam e, digo mais, acho que eu nem sabia ao certo o que era um radialista. Mas eu estava lá (vejam só meu grau de maturidade na época! Hoje em dia, quando me lembro disso, fico sem saber o que é que eu tinha na cabeça).
Com todas essas andanças por aí (escondido dos meus pais), acabei ficando meio revolucionária também e dava sempre meus pitacos nos problemas que eu achava que tinham solução.
Mas nossa hora estava chegando, pois o falatório na escola chegou aos ouvidos da direção, que já estava atenta em relação à nossa má-reputação. Todo mundo que não fosse certinho demais era ruim e má-companhia...

A gota dágua aconteceu quando Kátia teve a brilhante idéia de planejar uma manifestação na entrada da escola, com a finalidade de forçar a saída da então diretora. Em nossas mentes recheadas de idéias, pensávamos que a vitória era certa e que conseguiríamos trocar aquela gestão por uma outra mais democrática. Pelo bem geral da nação, é claro!
Na manhã seguinte nos posicionamos em frente ao portão principal, tentando convencer a todos os alunos que chegavam a não entrar na escola e convidando-os a sentarem-se no chão, como forma de protesto.
Mas ninguém foi louco de nos acompanhar naquela besteira. Ficamos só nós duas lá fora, como duas patetas desiludidas e frustradas. Mas não nos demos por vencidas! Sentamo-nos no chão, abaixamos a cabeça e impedimos o porteiro de fechar o portão, pois estávamos bem no meio do caminho.
Quando o porteiro concluiu que não conseguiria nos convencer a sair dali, foi chamar Dona Corina, fazendo exatamente o que tínhamos em mente.
Ela já chegou com os nervos à flor da pele, ordenando que nós duas levantássemos dali. E nada... Pediu de novo. Nada também... da terceira vez, foi um grito tão medonho que, quando dei por mim, só vi o vergão que ela deixou em meu braço. Ela nos puxou violentamente do chão e nos levou para a diretoria. Nessa hora, confesso que tremi nas bases. Onde foi parar a minha valentia?
O resultado disso foi a expulsão da Kátia e uma suspensão para mim, pois a diretora sabia que eu era réu-primária.
Senti tanta vergonha, que mal conseguia olhar para os lados. E pensei comigo: meu nome está na lama... e agora?
O tempo foi passando e as coisas se normalizando. Sobrevivi sem minha amiga. Estive poucas vezes com a Kátia depois de tudo isso, pois meus pais proibiram contato entre nós duas. Até hoje me lembro dela e até sinto uma certa saudade daqueles tempos de tantas aventuras de adolescente. A nossa preocupação não era em namorar, como a maioria das garotas da nossa idade. No fundo, só queríamos melhorar o mundo, começando pela escola. A Kátia não era uma pessoa ruim e nem eu. Éramos apenas imaturas.
Depois de tudo isso, nunca mais fui a mesma. Algo em mim mudou. Aliás, aprendi que vamos nos modificando a cada experiência vivida e que esse círculo vicioso nunca terá fim.
Vivendo e aprendendo.
Por Viviane Righi
enviada por Viviane Righi
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|